Quando eu tinha minha agência de viagens, meu primeiro educational foi no Marrocos, lá em 2000, com a Francorosso (que, inacreditavelmente, ainda existe!), exatamente em Agadir, por três dias.
Agadir não me animou muito e nem quando fui anos depois a Casablanca, durante o cruzeiro com o Costa Serena, fiquei impressionada com a cidade; na verdade a achei bem anônima e suja.
Mas o Marrocos sempre me atraiu, principalmente pela sua deliciosa culinária, por isso estou decidida a voltar para finalmente conhecer suas belezas.
A cozinha marroquina é muito ampla, por suas evidentes contaminações com o Oriente Médio, mas também com o Mediterrâneo e as populações árabes, mouras, berberes, e há um prato que mais do que todos a representa no mundo: o cuscuz, sim porque o cuscuz não é egípcio, como muitos pensam, e sim marroquino.
Por esse motivo, para esclarecer um pouco, escolhi este prato para o blog, mas não só: em 2018 fui protagonista do mês de setembro do calendário do Grupo Artístico Le cafe des artistes, dedicado às cozinhas étnicas, justamente com o cuscuz (veja a foto abaixo).
O cuscuz (em francês: couscous ou cous cous, em siciliano: cùscusu) é o alimento tradicional de todo o Norte da África, tanto que poderia ser definido como o “prato nacional” dos berberes.
Em grande parte da Tunísia, Argélia, Marrocos e Líbia é conhecido simplesmente pelo nome em árabe: طعام, taʿām, ou seja “comida”.
A receita do cuscuz muda consideravelmente tanto dentro do mesmo núcleo familiar, quanto de uma família para outra, de cidade para cidade, de área para área, dependendo das estações, disponibilidade, tradições e ingredientes. Portanto, existem realmente muitas tipologias diferentes.
No caso do Marrocos, ao sul é mais comum o que leva cordeiro e legumes (a receita abaixo), enquanto nas zonas costeiras, obviamente, com peixe; no norte, por sua vez, costuma-se comer o de sabor mais adocicado, que prevê o uso de açúcar, passas, cebola e amêndoas.
A versão clássica “às sete verduras” privilegia hortaliças de raiz ou de inverno: cenouras, nabos, abóbora, repolho, abobrinhas e batatas, além do grão-de-bico.
A tradição quer que este prato seja consumido à noite, como faziam os povos nômades, todos sentados ao redor do prato, usando as mãos.
Este prato tem um importante valor social, é servido especialmente em ocasiões especiais, quando toda a família se reúne.
Para cozinhar o cuscuz segundo a tradição, deveria-se usar a cuscuzeira (o kesskess) que permite cozinhar a carne na parte de baixo e o cuscuz a vapor na parte superior.
Serve-se sempre quente ou morno. A temperatura quente mantém os grãos macios e soltinhos; o frio tende a compactá-los e formar torrões.
- Dificuldade: Média
- Custo: Econômico
- Tempo de preparação: 10 Minutos
- Tempo de cozimento: 2 Horas
- Porções: 4Pessoas
- Métodos de cozimento: Fogão
- Culinária: Marroquina
- Sazonalidade: Todas as estações
Ingredientes para cuscuz marroquino:
- 800 g cordeiro (pescoço, paleta ou pernil)
- 2 cebolas
- 500 g cuscuz de semolina de trigo duro (granulometria média)
- 150 g grão-de-bico
- 1 colher smen (manteiga fermentada, ou ghee)
- 3 abobrinhas
- 2 batatas
- 2 nabos
- 2 cenouras
- 200 g repolho verza
- 300 g abóbora
- 3 tomates
- 1 maço coentro (e/ou salsinha)
- q.b. azeite de oliva
- q.b. sal e pimenta
- q.b. ras el hanout (mistura de especiarias: cúrcuma, coentro, pimenta da Jamaica, canela, pimenta, cardamomo, gengibre, cominho, funcho, noz-moscada, anis estrelado, casca de laranja, feno-grego, louro)
Utensílios para cuscuz marroquino:
- 1 Panela cuscuzeira
Preparação
Comece dourando o cordeiro cortado em pedaços grandes na parte de baixo da cuscuzeira com um fio de azeite extravirgem, as cebolas fatiadas e uma mistura picada de coentro e salsinha. Adicione as especiarias e deixe apurar por alguns minutos.
Cubra a carne com bastante água quente (cerca de 3 l). Acrescente o grão-de-bico (previamente deixado de molho, se estiver seco) e os legumes que precisam de mais tempo, como cenouras e nabos. Na metade do cozimento, adicione uma colherinha de smen (a manteiga fermentada marroquina) para dar ao caldo seu aroma autêntico.
Enquanto o caldo cozinha, coloque a semolina em um grande prato raso (o gsaa). Solte-a com as mãos usando um pouco de água salgada e um fio de azeite, trabalhando com movimentos circulares para evitar grumos.
Coloque a semolina no cesto superior da cuscuzeira. Quando o vapor começar a sair dos grãos, retire-a, volte-a para o prato, solte-a novamente com um pouco de água e repita a operação uma segunda (ou terceira) vez. Isso deixará o cuscuz bem leve.
Na fase final do cozimento, acrescente ao caldo os legumes mais macios (abobrinhas e abóbora). Quando estiver pronto, despeje a semolina quente no prato de servir e incorpore uma última noz de smen (ou manteiga) para dar brilho e perfume aos grãos.
Forme uma “montanha” com a semolina, faça uma cavidade no centro para acomodar a carne e disponha os legumes em forma de leque ao redor. Regue o prato com algumas conchas do caldo bem saboroso e sirva o restante do caldo em uma tigela à parte.
Fotos do educational em Agadir de 16 a 19 de maio de 2000 e a foto do Calendário do Grupo Artístico 2018.
NOTA SOBRE O SMEN
O Smen (também conhecido como amlo) é a alma da cozinha marroquina, um ingrediente que define o sabor autêntico de muitos pratos tradicionais, como o cuscuz e a harira.
O que é exatamente?
É uma manteiga clarificada e fermentada. Obtém-se a partir da manteiga comum, que é fervida para eliminar a água e as proteínas do leite (tornando-se manteiga clarificada).
A particularidade marroquina ocorre depois: é filtrada, salgada e deixada a maturar em potes de terracota por meses, ou mesmo anos.
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Posso usar cuscuz pré-cozido?
Se você usar o cuscuz pré-cozido (aquele clássico de supermercado que fica pronto em 5 minutos), o procedimento muda drasticamente porque ele não suporta as três longas cozidas a vapor da tradição.
Aqui está como adaptá-lo para manter, mesmo assim, o sabor marroquino:
Não o ferva: coloque a semolina seca em uma tigela, adicione uma pitada de sal, uma colher de sopa de azeite e uma de Ras el Hanout.
Use o caldo do cozido: em vez de água simples, use o caldo coado que você preparou com a carne e as 7 verduras. Despeje-o fervente sobre a semolina (mesmo volume: 1 xícara de cuscuz = 1 xícara de caldo).
Cubra e espere: deixe repousar, coberto, por 5 minutos.
Solte com o Smen: uma vez inchado, adicione uma pontinha de smen (ou manteiga) e solte bem com um garfo para separar os grãos.

